JUSTIÇA PELAS PRÓPRIAS MÃOS

Na última semana fomos surpreendidos com duas notícias de barbárie social, onde a comunidade tentou fazer Justiça com as próprias mãos. A primeira, em Guarujá (SP) era Fabiane de Jesus, uma dona de casa, foi linchada no dia 3 de maio e morreu após ficar dois dias internada. Foi atacada por uma multidão depois da publicação de um retrato falado em uma página no Facebook de uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas.

 

Não era ela, não haviam crianças sequestradas nem rituais de magia registrados na cidade.
O segundo caso aconteceu em Araraquara (SP), domingo último, quando Mauro Muniz foi linchado e quase morreu ao ser confundido com o irmão Luciano, que havia efetivamente agredido a esposa. As pessoas continuaram com a agressão mesmo depois que as pessoas foram alertadas de que se tratava de Mauro e não do irmão, Luciano. Está em coma no hospital.  

 

A população está tomando gosto por atacar “pseudo” inimigos. Vivemos lado a lado com as pessoas e não mais as conhecemos. Estamos cada vez mais “on line”, insensíveis, agressivos e robotizados, impulsionados por post sem referência e autoria.

 

Fazemos parte de um conglomerado de gente cuja existência se exaure ou se explica apenas em torno do viver, ou do sobreviver, jamais do conviver humanamente (o que só acontece quando todos os humanos são pessoas dotadas de dignidade, que jamais podem ser tratadas como coisas). Viramos uma sociedade de massas, que se caracteriza pela ausência de limites.

 

Esta sociedade de massas é o resultado inevitável do declínio dos valores morais, que chegou ao niilismo (ao nada). Nas sociedades mais extremamente injustas, como a nossa (em que ¾ da população não conseguiram superar ainda sequer o patamar do analfabetismo funcional), o declínio dos valores morais superiores parece muito mais acentuado, porque cada um adota como preocupação do viver somente aquilo que entende ser conveniente.

 

Vive-se, portanto, como um escravo dos seus desejos, emoções, impulsos, medos e dos preconceitos. Nada mais é absoluto, salvo a liberdade que cada um concede a si mesmo, liberdade de viver desenfreadamente conforme os seus impulsos. Tudo, então, parece aberrantemente permitido (inclusive tirar a vida das outras pessoas como se fossem insetos, como Fabiane e Mauro). E é nesse tipo de sociedade que grande parcela dos habitantes do planeta está vivendo em pleno século XXI.

 

A autora é escritora e advogada