Capital Mutante
“O mundo vai na direção de um capitalismo patrimonialista, com acumulação de renda ininterrupta enquanto persistir uma taxa de retorno financeiro bem mais alta do que o crescimento da economia”. A afirmação do francês Thomas Piketty, economista mais famoso do momento, nos obriga a sérias reflexões. Ou seja: as desigualdades sociais tendem a aumentar cada vez mais em países emergentes e desenvolvidos, ao contrário do que apregoa o discurso dos governos democráticos.
O capital mutante, nas mãos de grandes conglomerados empresariais e instituições financeiras, age como o cristal líquido, adaptando-se às teorias econômicas, administrativas e tecnológicas. E se observarmos a história da humanidade, sempre houve a tendência de idolatria da lógica econômica em detrimento da lógica social e transcendental. Um dos maiores administradores de fundos da história, George Soros, confirma a teoria: o capitalismo é bem sucedido na geração de riqueza, mas não podemos contar com ele para assegurar liberdade, democracia e respeito à lei. Os negócios são motivados pelo lucro; não foram criados para resguardar princípios universais.
E como ficam os jovens talentos neste mundo complexo? Ao ingressarem nas empresas, depois de longos processos de seleção, eles seguem o mesmo raciocínio: só permanecem nos empregos se tiverem estímulos crescentes para alimentar sua motivação. As organizações verticalizadas demais, com fortes hierarquias, afugentam esta geração de nômades globais. As estatais, movidas a interesses político-partidários, não atraem esta nova “inteligência”. Diferente dos antigos profissionais, fiéis às empresas públicas ou privadas, que por sua vez incentivavam longas carreiras, hoje os tempos são outros. O signo é a volatilidade. As informações estão disponíveis em tempo real, em redes inteligentes de servidores externos, nas “nuvens tecnológicas” acessáveis mediante senhas e códigos.
O caminho é trazer a inovação para as gerências, com modelos horizontalizados, horários flexíveis e participação no capital acionário. Um planejamento empresarial que valorize políticas sociais e ambientais aliadas a recursos tecnológicos. Ao invés de serem olhados com desconfiança, os talentos mutantes precisam ser compreendidos. Afinal, serão eles os atores da sociedade pós-moderna, que é extremamente complexa e desafiadora em todos os campos da existência humana.
Gilberto dos Passos Aguiar
(*) Escritor e Engenheiro
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